Padre de Bom Jesus do Galho toma posse na Academia de Letras do Brasil

 O padre José Geraldo de Gouveia, de Bom Jesus do Galho, foi empossado como Acadêmico Honorário Vitalício da Academia de Letras do Brasil (ALB), Seccional Zona da Mata Mineira, ocupando a cadeira nº 44. A homenagem reconhece sua contribuição às letras, à pesquisa acadêmica e à difusão do conhecimento bíblico.

A cerimônia ocorreu em Manhuaçu e reuniu representantes da academia, escritores, pesquisadores e convidados. Além do diploma de posse, o sacerdote recebeu a medalha da instituição, passando a integrar oficialmente o quadro honorário da entidade literária.

Para José Geraldo, o reconhecimento representa um estímulo para ampliar um trabalho que desenvolve há décadas: aproximar leitores dos textos bíblicos por meio de uma abordagem histórica, literária e humanizada. “Quando o trabalho que fazemos ganha algum reconhecimento, isso nos motiva a divulgar ainda mais a literatura presente em cada página da Bíblia. É importante fazer com que a Bíblia seja amada e não temida”, afirma.

Autor de três livros e de diversos artigos acadêmicos, o sacerdote defende uma leitura que considere os contextos históricos, culturais e antropológicos dos textos sagrados. “As pessoas são curiosas em relação à leitura bíblica, mas muitas vezes têm medo dos textos. Quando descobrem que a Bíblia também é palavra humana, com poesia, parábolas, metáforas e narrativas simbólicas, a abordagem se torna mais leve e menos fundamentalista”, diz.

FORMAÇÃO ACADÊMICA

José Geraldo possui uma trajetória acadêmica incomum entre os sacerdotes da região. É bacharel em Filosofia e Teologia pelo Seminário Diocesano Nossa Senhora do Rosário, mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade San Tommaso, em Roma, doutor em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, além de licenciado em Filosofia e História.

Atualmente, atua como professor no Seminário Diocesano Nossa Senhora do Rosário, em Caratinga, e no Instituto Teológico Dom Hermínio Malzone Hugo, em Governador Valadares. Entre suas áreas de pesquisa estão o Evangelho de Mateus, as origens do cristianismo, a formação do cânon bíblico, literatura joanina, literatura apocalíptica, história antiga do Oriente Médio e línguas clássicas aplicadas aos estudos bíblicos.

LIVRO PROPÕE NOVA INTERPRETAÇÃO DE PASSAGEM BÍBLICA

Recentemente, o sacerdote lançou o livro O Segredo das Chaves de Mt 16,19: poder ou abertura salvífica?, resultado de sua pesquisa de doutorado.

Na obra, José Geraldo revisita uma das passagens mais conhecidas do Evangelho de Mateus, tradicionalmente associada ao poder conferido ao apóstolo Pedro. “O trabalho demonstra que as chaves mencionadas por Jesus representam abertura, acolhida, perdão e serviço. Trata-se de uma metáfora voltada para a inclusão e não para o fechamento”, explica.

Segundo o autor, a interpretação dialoga diretamente com os desafios contemporâneos, marcados pela intolerância e pela dificuldade de convivência com as diferenças. “Gosto especialmente da forma como Mateus apresenta Jesus ao lado dos marginalizados. Ele convive com os excluídos, acolhe os diferentes e combate preconceitos. Talvez essa seja uma das mensagens mais urgentes para os dias atuais”, afirma.

 EDUCAÇÃO PARA TRANSFORMAÇÃO

Ao refletir sobre a importância da leitura e do conhecimento, o sacerdote cita a educação como elemento central para o desenvolvimento social. “Educação é a base do desenvolvimento. A leitura é uma ferramenta essencial nesse processo. Educar é melhor do que punir; construir escolas é melhor do que presídios”, defende.

A posse na Academia de Letras, segundo ele, também amplia sua responsabilidade pública.

“Fazer parte de uma academia literária implica novas responsabilidades. Espero contribuir de alguma forma para o fortalecimento da cultura e da produção intelectual.”

Entre os projetos futuros, José Geraldo revela que pretende desenvolver uma obra que una literatura bíblica e ficção, mantendo o objetivo de tornar os textos sagrados mais acessíveis ao público sem perder sua profundidade espiritual e literária.

Ao dirigir uma mensagem aos jovens, o novo acadêmico cita São João Paulo II: “Não tenham medo. Sejam questionadores, usem a inteligência, que é um dom de Deus. Não tenham medo da Bíblia.”

 

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