Novo solo formado após desastre de Mariana não apresenta contaminação química relevante, indicam estudos

O novo solo formado pelos rejeitos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), não apresenta contaminação química relevante, mas ainda enfrenta desafios físicos e biológicos para sua recuperação. A conclusão integra o livro “Recuperação Ambiental da Bacia do Rio Doce: Contribuições da Ciência Após Dez Anos do Rompimento da Barragem de Fundão”, que será lançado em setembro.

Os estudos foram coordenados pelo professor Marco Aurélio Carbone Carneiro, da Escola de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Lavras (Esal/UFLA), que acompanha a área desde os primeiros meses após o desastre. “Quando cheguei lá, três meses após o desastre, eu pensei que o solo estaria perdido e não teria jeito de recuperar, que bom que não foi bem assim. No início, pensamos que os rejeitos tivessem se misturado com o solo, mas não. Em muitos locais, a quantidade de material depositado foi tão grande que o solo original ficou soterrado e se formou um solo completamente novo, o chamado tecnosolo”, comenta o organizador do livro.

Segundo o pesquisador, os rejeitos são compostos predominantemente por minerais ricos em ferro e apresentam baixas concentrações de elementos potencialmente tóxicos. As análises não identificaram contaminação química relevante. Ainda assim, elementos como manganês e alumínio continuam sendo monitorados, já que sua disponibilidade pode variar conforme as condições ambientais.

O tecnosolo tem uma particularidade, seu principal problema não é químico, mas físico. Trata-se de um solo muito compactado, pouco aerado e com elevada concentração de partículas finas. Dessa forma, a infiltração de água fica prejudicada e as raízes encontram dificuldades para penetrar e se desenvolver, limitando o estabelecimento da vegetação.

As pesquisas reunidas no livro monitoram, ao longo dos anos, as características químicas, físicas e biológicas do tecnosolo. Uma das ações para avaliar as características químicas foi analisar a orla do Rio Gualaxo do Norte. “Analisamos mais de 250 amostras ao longo da orla do rio para confirmar se realmente não tinha contaminação química relevante naquele novo solo que se formou, e não tinha.”.

Após o desastre, a então Fundação Renova, entidade responsável pela reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem, realizou ações emergenciais de recuperação ambiental, como a semeadura de espécies vegetais de crescimento rápido sobre o tecnosolo. Essas plantas ajudaram a iniciar a reorganização física do ambiente. As raízes passaram a criar canais no solo compactado, favorecendo a infiltração de água, a aeração e o acúmulo de matéria orgânica.

Segundo Marco Aurélio, a etapa mais lenta e delicada da recuperação envolve os organismos vivos que habitam o solo. “A parte biológica é a mais sensível. Nas primeiras expedições não havia sinal de fauna de solo por lá. Como não havia contaminação química, e a recuperação física do solo está acontecendo, estamos na fase da recuperação biológica, que é a última ponta da recuperação de áreas degradadas.”.

De acordo com o pesquisador, atualmente a recuperação biológica já avança mesmo sem intervenção humana direta. “Se você for hoje lá, você vai até estranhar porque está tudo revegetado, coberto de plantas.” Marco Aurélio explica que a vegetação voltou a ocupar parte das áreas atingidas, principalmente por meio de espécies pioneiras, que conseguem se estabelecer mesmo em condições adversas. Ainda assim, essas árvores possuem raízes relativamente superficiais e enfrentam dificuldades para romper as camadas mais compactadas do tecnosolo.

Marco Aurélio pontua que o tecnosolo tende a se descompactar naturalmente ao longo do tempo, processo considerado fundamental para a retomada completa do funcionamento ecológico da região. “A última expedição de coleta de amostra foi em 2024 e já não era possível entrar na área sem abrir caminho pela mata.”.

Embora os resultados ambientais indiquem sinais de recuperação, os impactos sociais do desastre seguem presentes na região. Marco Aurélio destaca que a perda de vínculos culturais, econômicos e afetivos ainda marca a vida de muitas famílias atingidas. “A questão social segue sensível. Muitas famílias perderam a referência de infância, de sustento e de vida com o desastre. E a gente não conseguiu ter uma interface direta com a população, para que talvez a gente pudesse levar todas essas informações que estudamos.”.

A publicação reúne uma década de pesquisas conduzidas por docentes e pós-graduandos da UFLA sobre os efeitos ambientais do rompimento da barragem. Segundo o professor, o objetivo é que o material circule entre universidades, órgãos ambientais e gestores públicos envolvidos em políticas de recuperação e prevenção de desastres.

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