“Crianças precisam saber identificar o abuso”, defendem especialistas em audiência

Projetos educativos, orientação familiar e prevenção nas escolas foram destacados como essenciais no combate à exploração e à violência sexual infantil

Um dos principais pontos defendidos pelos especialistas durante a audiência pública promovida nesta segunda-feira (25), sobre o enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, foi a importância da informação como ferramenta de prevenção.

Ao longo do debate, profissionais das áreas de segurança pública, justiça e assistência social e ativistas destacaram que a orientação e o diálogo com crianças, famílias e escolas são fundamentais no combate à violência sexual infantojuvenil.

Durante sua participação, a advogada e ativista paraense Carol Resque também reforçou a importância da informação e da educação preventiva no enfrentamento à violência sexual infantil. Ela apresentou o projeto “Farol do Toque”, desenvolvido no Pará, e destacou a necessidade de ensinar às crianças a diferença entre toques adequados e situações de abuso.

Segundo Carol Resque, é fundamental que as crianças aprendam a identificar o chamado “toque estranho” — aquele em que o agressor pede segredo.

“É necessário ensinar as crianças sobre intimidade e sobre o próprio corpo. Nomear corretamente as partes íntimas e mostrar que elas não estarão em apuros caso relatem qualquer situação faz toda a diferença. Construir uma relação de confiança com as crianças é essencial”, afirmou.

A ativista também citou exemplos de políticas públicas preventivas, como adequações em espaços frequentados por crianças, incluindo banheiros escolares, além da exigência de certidão de antecedentes para profissionais que atuam diretamente com o público infantil.

Presente na audiência, a vereadora de Contagem, Keila Cristina Parreiras Aredes, a Tia Keila, destacou que muitas crianças vítimas de violência sequer conseguem identificar que sofreram abuso. Segundo ela, a falta de orientação adequada dificulta o reconhecimento e a denúncia das situações de violência.

“A educação sexual não está ligada ao erotismo ou ao incentivo ao sexo, mas à afetividade, ao respeito e à proteção da criança”, afirmou.

Durante sua fala, a parlamentar também chamou atenção para o impacto do acesso precoce à pornografia no aumento dos casos de violência e exposição infantil. Segundo ela, crianças e adolescentes têm sido expostos cada vez mais cedo a conteúdos inadequados, seja pela internet, pelas redes sociais ou até por músicas e conteúdos audiovisuais.

“Não podemos permitir que crianças tenham acesso facilitado à pornografia, seja por um clique no celular ou por conteúdos incompatíveis com sua maturidade cognitiva. Essa exposição desperta curiosidade de forma distorcida e prejudicial”, alertou.

De acordo com Tia Keila, houve aumento expressivo no número de crianças e adolescentes expondo o próprio corpo na internet. “Os dados mostram um crescimento de 360% nesse tipo de ocorrência, o que demonstra a urgência de fortalecer a prevenção, a orientação familiar e o controle sobre os conteúdos acessados pelas crianças”, concluiu.

Pessoa de confiança

Para Tia Keila, a criança precisa ter uma pessoa de confiança para conseguir relatar os abusos. Nesse contexto, é fundamental que ela compreenda que essa pessoa a ama, a ouve, acredita no que ela fala, se preocupa com seus sentimentos e a ajuda a sair de situações difíceis.

Ainda segundo a vereadora, todos podem contribuir para a proteção infantil, mas é importante que cada criança tenha um agente de confiança com quem possa conversar. “É fundamental que essa criança se sinta acolhida, ouvida e saiba que o que for contar terá respaldo. É preciso proteger as crianças, porque os abusadores agem exatamente quando percebem brechas e vulnerabilidades”, disse.

Projetos – A delegada regional da Polícia Civil em Ipatinga, Talita Martins Soares, anunciou que o município deverá receber, em breve, o projeto “Semáforo do Toque”. A iniciativa prevê palestras lúdicas voltadas a crianças da pré-escola, com o objetivo de orientar, de forma didática, sobre limites corporais, situações de abuso e os canais de ajuda disponíveis.

“Queremos ensinar às crianças onde um adulto pode tocar e onde não pode, além de mostrar como elas podem buscar ajuda. Se a violência acontecer na escola, a criança deve procurar os pais; se ocorrer em casa, ela precisa saber que pode pedir ajuda na escola”, explicou à delegada.

Segundo Talita Martins Soares, a expectativa é expandir o projeto para toda a rede municipal de ensino. “Se conseguirmos alcançar todas as escolas, teremos uma ferramenta extremamente importante no enfrentamento à violência”, afirmou.

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