Ancestralidade e resistência

Comunidade Manzo N’Gunzo Amazilemba lança programa de formação e salvaguarda de saberes tradicionais da cultura Angola Amazilemba no Vale do Aço

 

Em um movimento estratégico para combater o apagamento histórico e fortalecer a identidade afro-brasileira em Minas Gerais, a Comunidade Tradicional Terreiro Manzo N’Gunzo Amazilemba divulga o lançamento do projeto “Cultura Angola Muxicongo no Vale do Aço: formação em saberes tradicionais”.

 

A iniciativa parte do entendimento de que o terreiro é, por natureza, um centro de educação comunitária, tendo a difusão dos saberes como uma importante ferramenta de combate à invisibilização histórica e fortalecimento da identidade afro-brasileira na região.

 

“Nossa lealdade é com a ancestralidade. Este projeto não é apenas um ciclo de oficinas, mas um ato de resistência e transmissão de um patrimônio imaterial que estrutura nossa relação com o território e com a vida”, afirma Tatetu Aladey (Gesmar Bernardino), zelador da comunidade.

 

Cronograma de Formação e Saberes

De acordo com Makota Wulangana (Ana Luíza Drummond), as atividades foram planejadas para oferecer uma imersão gradual na cosmopercepção da Nação Angola. “O projeto se estrutura como um programa de formação continuada voltado para agentes culturais, pesquisadores, integrantes de movimentos negros e o público em geral”, reforça uma das lideranças da comunidade.

 

No mês de agosto, se iniciam oficialmente as atividades do projeto. No dia 26, a comunidade realiza no bairro Petrópolis, em Timóteo, a Kymenga de Kavungo, atividade, voltada aos membros internos, de preparação para a kyzomba (festa tradicional da cultura Angola) do mês.

 

No dia 29 (sábado), o Manzo abre suas portas às 17h com a exposição fotográfica “Manzo N’Gunzo Amazilemba: memória, território e sagrado”, com fotografias do artista visual Nilmar Laje, curadoria do Muzenza Kuatanguê (Jorge Benedito de Freitas), seleção de indumentárias de Dandaluyangalalu (Maria de Lourdes da Silva), e com o apoio via emenda parlamentar da deputada estadual Andreia de Jesus. Logo na sequência, às 17h30, acontecerá a formação “Indumentária ritual, símbolos e estética da tradição Angola”, abordando a relação entre a estética das vestimentas e o sagrado. Também neste dia, às 19h30, ocorre a Kukuana, uma das festas mais importantes do ano para a comunidade, fortalecendo as ações de reconhecimento, preservação e difusão das culturas tradicionais de matriz africana em Minas Gerais.

 

Em setembro, o foco volta-se para a “Musicalidade Angoleira: cantos tradicionais, caboclos e oralidade ritual”. Sob a orientação de Tata Kamulembê (Gladston Bernardino), os participantes estudarão a musicalidade sagrada e a transmissão oral, pilar fundamental da cultura angoleira. Essa formação é também uma preparação para o registro fonográfico e audiovisual de cantos tradicionais de caboclos e boiadeiros, que serão posteriormente disponibilizados em plataformas de streaming. O objetivo é garantir que a musicalidade angoleira, muitas vezes restrita à oralidade, ganhe novos canais de circulação e preservação para as futuras gerações.

 

Na sequência é a vez da Makota Wulangana conduzir o módulo “Saberes ancestrais e cosmopercepção da tradição Angola”, aprofundando os fundamentos espirituais e os princípios cosmológicos que regem a tradição construída sobre o tronco linguístico bantu.

 

“Conhecer a tradição bantu nos permite compreender que ela respira em nossas raízes, em nossa língua, em nossos gestos e em nossa forma de habitar o mundo.
Quando a conhecemos, o passamos a compreender melhor a nós mesmos e ao nosso país”, afirma Makota Wulangana.

 

Em outubro, acontece o módulo “Gestão cultural para comunidades tradicionais”, facilitado pela produtora cultural Leila Cunha e pela Kota Onyjarum (Rosemar da Silva). Essa formação será realizada em formato híbrido, com atividades presenciais e transmissão simultânea online, visando capacitar lideranças de quilombos e terreiros de outras regiões de Minas Gerais na elaboração de projetos e acesso a políticas públicas.

 

Em novembro, a facilitadora Kota Bambuleuá (Mary Prisca) ministrará a formação “Dança, corpo e expressão cultural nas tradições afro-brasileiras”, explorando a linguagem corporal e o movimento como extensões do ritual. Na sequência, marcando o encerramento do projeto, a formação “Nação Angola Muxicongo: quem somos nós?”, será conduzida pelo zelador da comunidade, Tatetu Aladey.

 

As atividades são gratuitas e custeadas com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), edital 04/2026 – Transmissão de Saberes Tradicionais e conta com os apoios da Casa Aldeia: Educação, Arte e Cultura e Fino Trato Produção Cultural. O formulário de inscrição encontra-se disponível no Instagram da comunidade @manzongunzoamazilemba.

 

Manzo N’gunzo Amazilemba

Com mais de 30 anos de atuação como território de resistência e produção de conhecimento, a Comunidade Manzo N’gunzo Amazilemba é reconhecida como Zona Especial de Interesse Social (ZEIS) e integra, também, o Coletivo de Entidades Negras de Minas Gerais.

 

Liderada por Tatetu Aladey, iniciado no candomblé há 35 anos, a comunidade desenvolve ações contínuas de preservação de saberes ancestrais, práticas espirituais, expressões artísticas e modos de vida vinculados à cultura angoleira.

 

Ao longo de sua trajetória, o Manzo Ngunzo Amazilemba consolidou-se como espaço de produção cultural, formação comunitária e resistência, promovendo atividades que articulam religiosidade, arte, educação e território. Suas ações incluem a realização de eventos culturais, encontros formativos, celebrações tradicionais, práticas musicais e corporais, além da transmissão intergeracional de conhecimentos ligados à oralidade, à natureza e à ancestralidade.

 

“Nossa missão é garantir que o conhecimento seja resguardado pelos mais velhos para se tornar uma ferramenta de emancipação para os mais novos”, finaliza Tatetu Aladey.

 

Serviço:

Projeto: Cultura Angola Muxicongo no Vale do Aço: formação em saberes tradicionais.
Local: Comunidade Tradicional de Terreiro Manzo N’Gunzo Amazilemba – Rua Cinco, 107, Residencial Fazendinha, Cel. Fabriciano.

Informações: via Instagram @manzongunzoamazilemba

Inscrições: via formulário disponível na bio do Instagram

Observação: O cronograma poderá sofrer alteração conforme disponibilidade dos formadores.

Participação gratuita e classificação livre.

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