O texto abaixo não é meu; é do Luigi Torre, diretor de reportagem de moda da ELLE Brasil. Eu considerei tão perfeito que me dei o direito de divulgar aqui no site. Vejam se não tenho razão:
Ontem (31.08), o Museu Metropolitano de Arte de Nova York (Met) e John Galliano comunicaram o cancelamento da exposição em homenagem ao estilista prevista para maio do ano que vem. Desde que foi anunciada no fim de julho, a mostra John Galliano: Horizons tem recebido críticas e dividido opiniões. Surpresa não é, né? Tanto pela gravidade dos crimes cometidos pelo designer quanto pela atual polarização em relação a tudo. Mas vamos por partes.
Que exposição é essa? É a principal exposição de moda do Costume Institute do Met, aquela que costuma ser inaugurada pelo Met Gala, na primeira segunda-feira de maio. Em julho, o museu comunicou oficialmente que a mostra de 2027, John Galliano: Horizons, se debruçaria sobre o trabalho do britânico. Ele seria o terceiro estilista vivo a receber tal honraria (os outros dois foram Yves Saint Laurent, em 1983, e Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, em 2017).
O que Galliano fez? John Galliano apresentou sua coleção de formatura na Central Saint Martins, em Londres, em 1984, e prontamente chamou atenção de nomes poderosos da indústria. Ele ficou conhecido como um mestre do corte viés, um romântico declarado e exímio diretor de cena. Em 1995, Bernard Arnault, presidente do grupo LVMH, o contratou para assumir a direção criativa da Givenchy e, um ano depois, o colocou no comando da Dior. Ao longo de quinze anos, ele transformou a maison de alta-costura em um fenômeno global bilionário.
Em 2011, Galliano foi gravado em vídeo proferindo comentários antissemitas e racistas em duas ocasiões distintas em um bar em Paris. Logo na sequência, um tabloide inglês divulgou outro incidente, também filmado, com falas nazistas. Ele foi demitido e condenado por crime de ódio pela justiça francesa.
Ele se desculpou, alegou dependência em álcool e drogas e entrou na rehab. Quando saiu, estudou judaísmo, antissemitismo e o holocausto com um rabino em Londres e com Abraham Foxman, que na época era diretor nacional da Liga Antidifamação. No documentário High & Low (2023), o estilista comenta sua trajetória de recuperação e redenção.
De volta ao trabalho Com uma ajudinha de Anna Wintour, entusiasta e apoiadora de longa data, Galliano recebeu o cargo de diretor de criação na Maison Margiela em 2014. Ele ficou lá por dez anos. Seu desfile de despedida, em janeiro de 2024, foi um dos mais emblemáticos, bem criticados da temporada e é considerado por muitos (me incluo nessa lista) como um ponto de virada na história recente da moda.
Desde então, o designer se manteve mais ou menos afastado dos holofotes. Até que em janeiro, ele assistiu da primeira fila a estreia de Jonathan Anderson na alta-costura da Dior. (Jonathan é o atual diretor criativo da marca.) Acelera um par de meses, e seu nome voltou a ser manchete, dessa vez devido ao anúncio de uma parceria de dois anos com a Zara – com lançamento previsto para setembro.
Voltando à exposição… Em 2023, o Costume Institute, área que coordena as atividades de moda na instituição, já havia considerado fazer uma exibição sobre o designer britânico, mas suspendeu os planos indefinidamente devido a preocupações com reações negativas. Por que 2027 seria melhor ou diferente, é um mistério.
Cientes das controvérsias, Andrew Bolton, o curador do Costume Institute, e Anna Wintour, diretora editorial global da Vogue e membro do conselho do Met, acharam de bom tom consultar membros da comunidade judaica de Nova York. No último ano, eles e John Galliano fizeram uma série de reuniões com rabinos e líderes judaicos na cidade. A ideia era ao mesmo tempo medir quão problemática seria a retrospectiva e atestar o arrependimento e aprendizado do homenageado.
De acordo com o The New York Times, a maioria dos consultados se disse convencida do arrependimento de Galliano. No entanto, muitos manifestaram preocupação sobre como os problemas e falhas do britânico seriam abordados. Todos ressaltaram a necessidade de endereçar tais assuntos criticamente, sem eufemismos.
Uma homenagem incomoda muita gente Na sexta-feira (28.08), uma outra reportagem do NYT revelou que a pressão pública, política, da comunidade judaica, de membros do conselho e patronos do Met se intensificou nos últimos dias. Teve gente dizendo que cortaria doações ao museu caso a exposição acontecesse. Alguns colecionadores ameaçaram rescindir suas parcerias e empréstimos. Julie Menin, presidente da Câmara Municipal de Nova York e a primeira judia a ocupar o posto, escreveu que a decisão de homenagear Galliano seria “um erro grave”.
E aí veio a carta “Após muita reflexão e discussão com todos os envolvidos, decidi, com grande tristeza, que é melhor a exposição não ser realizada neste momento. Assumo total responsabilidade pela dor causada por minhas palavras no passado, particularmente pela mágoa que causei às comunidades judaica e asiática, e continuo profundamente arrependido. Entendo que uma reparação significativa não se alcança por meio de uma exposição, de um reconhecimento institucional ou de um único gesto público. É uma responsabilidade contínua, demonstrada pela escuta, pelo aprendizado e pela conduta ao longo do tempo. Não quero que o debate em torno de mim coloque o Met em uma posição difícil ou desvie a atenção do trabalho notável do Costume Institute. Também reconheço e respeito que uma exposição em homenagem ao meu trabalho seria dolorosa para alguns”, escreveu Galliano em uma carta publicada em seu perfil no Instagram. Meio que na mesma hora, o Met enviou um comunicado oficializando o cancelamento da exibição.
Ah, é a cultura do cancelamento É e não é. O assunto é complexo demais para afirmações simplistas corriqueiras. De fato, John Galliano: Horizons seria uma boa oportunidade para abordar o tema do cancelamento. A questão é como. Será que um texto na parede de uma galeria, um panfleto ou um catálogo daria conta? Quem é contrário à homenagem argumenta que havia grandes chances do estilista acabar santificado e seus atos normalizados em nome da genialidade criativa. A gente já viu isso antes.
Em 2023, a exposição de moda do Met foi uma celebração ao legado de Karl Lagerfeld, que também tem sua dose de atrocidades registradas on the record. Quem as desconhecia, entrou e saiu do museu na mesma – não havia nenhuma menção a elas no material expositivo. Na época, Lagerfeld já estava morto (ele faleceu em fevereiro de 2019). Em vida, raramente se desculpou pelas falas racistas, gordofóbicas, misóginas e elitistas.
Aquela mostra não deveria ter rolado? Talvez não. E o fato de ter acontecido não justifica a realização de outra tão problemática quanto. A questão vai além de separar a obra do autor. As perguntas são: que tipos de comportamentos nocivos a gente está disposto a relevar em detrimento de reconhecimento artístico e cultural? O sofrimento de quem é mais ou menos aceito?
Galliano não foi condenado criminalmente apenas por antissemitismo. Ele foi declarado culpado por “insultos públicos com base na origem, afiliação religiosa, raça ou etnia”. Entre as vítimas, estava um casal asiático. Ao longo de sua carreira, não foram poucas suas coleções que hoje seriam consideradas apropriação cultural. Mas quem gritou mais alto? Quem foi escutado e por quê?
O Met não desistiu da exposição por medo de cancelamento na internet, o fez para não perder dinheiro. O poder financeiro da comunidade judaica, em especial a nova-iorquina, foi decisivo. É importante reconhecer o privilégio – e as escolhas das causas combatidas. As vantagens, contudo, não são premissas para relativizar a gravidade de infrações aos direitos humanos tampouco parâmetros para quem pode suportá-los em maior ou menor grau. Onde passa um boi, passa uma boiada. O ideal é que não passasse nada.
De novo, é complexo e delicado. A superficialidade, a polarização e o empobrecimento do pensamento crítico nos discursos nas mídias sociais não ajudam. Nem precisa concordar, basta entender a decisão do Met para ser considerado sionista e alinhado ao atual governo de Israel. Não é tão simples assim. Passadas de pano seletivas só fazem sentido para quem quer que panos continuem sendo passados.
Enquanto isso, as cegas de paixão, inconformadas, perguntam: “Querem mais o que do Galliano, pena de morte?”. Calma lá, era só uma retrospectiva. Ele não está preso nem passando necessidade. “E a segunda chance?” Ele teve e se deu bem, vide os dez anos na Margiela. Agora tem o rolê com a Zara.
Sou fã declarado de John Galliano. Quem duvidar pode pesquisar no site da ELLE Brasil. Também sou 100% contra a cultura do cancelamento. Relegar alguém ao ostracismo nunca me pareceu uma boa ideia. É tipo ignorar o problema em vez de solucioná-lo. Todo mundo pode recomeçar, corrigir, melhorar. Desculpas são necessárias e bem-vindas, porém não apagam o passado. Grandiosidade, genialidade e relevância cultural fazem parte dele, da história, independentemente de os agentes serem mocinhos ou vilões.
É perfeitamente compreensível admirar o legado de um criador errático. É problemático (e contraditório) aceitar que essa trajetória seja glorificada sob um ponto de vista enviesado, a despeito de um tanto de casos semelhantes julgados distintamente. O valor da contribuição de uma pessoa não está diretamente condicionado ao teor de seus atos. Já a maneira como esse repertório é reunido e apresentado – em uma exposição, por exemplo – pode alterar a compreensão e a narrativa sobre aquele personagem.
Tem um monte de gente que fez coisas muito positivas pontualmente, mas foi uó sob uma perspectiva mais ampla. É assim na política, na arte, na música, no cinema. O reconhecimento é inegável, nem por isso são homenageadas pública e individualmente. Imagina uma retrospectiva em celebração a Roman Polanski, Woody Allen, Ye (Kanye West). Por que na moda deveria ser diferente?

@_luigitorre é diretor de reportagem de moda da ELLE Brasil.




