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DA CHIQUE! PRÁ CÁ: EXPEDIÇÃO AO MONTE RORAIMA

Na última edição da revista CHIQUE!, publiquei uma viagem incrível que Luciana Profiro fez ao Monte Roraima. Ela é formada em Relações Públicas. Programadora do Instituto Usiminas, é também uma das idealizadoras do Projeto Contém Cultura. Budista, amante de trilhas e viagens.

 

Na vida só resta seguir, Um risco, um passo, um gesto rio afora…

Por Luciana Profiro*

“É nas experiências, nas lembranças, na grande e triunfante alegria de viver na mais ampla plenitude que o verdadeiro sentido é encontrado.” Por Christopher McCandless em Into The Wild

Você já esteve em três países ao mesmo tempo?

A melhor expedição Trekking (caminhada) na América Latina com certeza é para Tepuy Roraima, onde tive a oportunidade de conhecer o verdadeiro mundo perdido, sentir sua energia e carregá-lo com toda sua paz e majestade, com as vistas mais deslumbrantes.

Roraima é o tepuy (um tipo de meseta – acidente geográfico caracterizado por uma área elevada de solo com um topo plano, rodeada por todos os lados por escarpas inclinadas especialmente abrupto -, mais importante da Formação Roraima, localizado na Venezuela, Guiana e no Brasil, marcando a fronteira entre os três países). É considerado um dos mais antigos sítios geológicos do planeta, que remonta ao Pleistoceno, cerca de 2.000 milhões de anos atrás. A lenda indígena Pemon, originou mencionando Roraima como a “Árvore das frutas” e se relacionam com a origem da vida, que emanava dele todos os tipos de frutas, animais e até seres humanos.

“A verdadeira felicidade só existe quando é compartilhada.” Christopher McCandless

A felicidade é gigante de poder compartilhar com vocês essa grande expedição que a princípio seria um conhecer externo, virou uma grande viagem para dentro de nós mesmos.

Um dia no Rio Janeiro, um amigo falou do desejo de fazer essa travessia, que passava por comunidades indígenas e fiquei louca pra ir. Tempos depois deparei com um grupo no facebook convidando pra essa expedição. Quando vi as fotos, achei que era a mesma aventura que um amigo de infância tinha me mostrado e resolvi perguntar. Para surpresa não era, mas que recentemente ele estava pesquisando pra fazer também, então combinamos de ir juntos. A intenção era começar a planejar em março para ir em setembro/2016, mas o universo conspirou e fomos mais rápido que o esperado, em maio/2016. Confesso que não foi a melhor época pra ir, pois o tempo fica muito fechado, muita chuva, mas foi o momento certo pra gente, uma expedição exclusiva só eu, meu companheiro e a equipe do Leopoldo Pillar Gonzales.

Planejando a viagem, entramos em contato com o Leopoldo (Roraima Destiny), marcamos a data e o sonho começou a se tornar realidade. Os preparativos de compras de roupas térmicas, mochila, bota impermeável, bastão de trilha, capa de chuva, suplementos, e tudo teria que caber numa mochila com no máximo 10k, era o recomendado para a expedição.

Pegamos um avião rumo a Boa Vista-Roraima, pernoitamos e no dia seguinte pegaríamos um taxi.

De Boa Vista a Santa Elena de Uairén (Venezuela) são aproximadamente 250 km — 3h de estrada. Pegamos um taxi para a cidade venezuelana, foi um achado, Sr. Branco, não esqueço, fizemos uma ótima viagem regada a muitas histórias e papo super interessante.

A última cidade brasileira — e que faz fronteira com Santa Elena — chama-se Pacaraima, onde descemos e encontramos com Leo, nosso guia, que por sinal é indígena. Ele mesmo se encarregou de conseguir outra condução pra nossa viagem da fronteira até o centro de Santa Elena que é de aproximadamente 15 minutos.

Na fronteira, passamos pra registrar a entrada no país. É importante informar que estará indo não somente para Santa Elena de Uairén, mas também para o Monte Roraima. Não é necessário passaporte, somente uma RG atualizada já serve.

A entrada no país acontecerá de forma tranquila, possivelmente ninguém vai te parar para revistar ou fazer perguntas, mas no retorno é totalmente o oposto, fique preparado para um possível tempo de espera para ser atendido.

Logo que chegamos já fomos fazer o câmbio da nossa moeda para Bolívares Venezuelanos e nos hospedamos numa pousada ao lado da casa do Leopoldo, muito boa, e à noite encontro pra planejarmos o roteiro dia a dia e acertar tudo que iríamos levar. Todo cuidado, quanto menos química melhor, nada de shampoo.. aconselha levar sabão de coco pra tudo, um lencinho umedecido é uma boa dica principalmente pra quando não tiver como tomar banho..rsrs…Vaselina pra passar nos pés pra evitar calo, roupa térmica pra sol e calor pois o tempo é imprevisível, pode mudar a qualquer momento. Repelente é quase inútil, negócio é deixar tudo tampado mesmo ou dentro d’água…as refeições são levadas e preparadas pela equipe, um cozinheiro, um apoio como carregador das coisas de camping e o guia, que também carrega bastante peso. Eles levam tudo, barracas, fogareiro, vasilhames, alimentos que aguentam a expedição e banheiro, sim, um banheiro, espécie de barraca única com um banquinho de plástico com buraco no meio e com uma sacola dentro…  depois falo mais disso… rsrs. E pronto, roteiro visto, checado cada detalhe, responsabilidades de cada um e estamos prontos, só esperar o dia seguinte.

1º dia – Partida de Santa Elena às 9h e em cerca de 2 horas de viagem em um veículo 4 × 4 para a comunidade indígena de Paraitepuy. Nós dirigimos cerca de 90 Km. dos quais os últimos 26 km são um gasto da estrada bem nível rali. Demos a entrada no parque no meio de uma aldeia de índios, fizemos um lanche, abastecemos com água, checamos de novo tudo e a partir daqui começamos a nossa caminhada para o acampamento Rio Tek.

São 9 km, cerca de quatro horas de caminhada aproximadamente. O Paraitepuy é 1.200 m.s.n.m. (metros acima do nível do mar), e o acampamento TEK é 1.050 m.s.n.m., ou seja, são declives suaves. Logo de primeira, uma subida com sol rachando, já comecei a dar uma tonteira, o peso de 10kg nas costas mais a temperatura alta já faz o teste se vai conseguir continuar ou não. Mas paramos, dei uma respirada, tomei água e vamos lá…vai dar certo…

Chegamos ao primeiro acampamento, uma casinha de pau a pique pra suporte nas refeições, barraca armada, banho de rio que aliás tem recomendações, são tão conscientes e respeitosos com os que vêm ali, que tem a altura certa  do rio pra cada coisa, pegar água pra fazer as refeições, lavar a roupa e mais embaixo tomar o banho. De banho tomado, agasalhados, hora da janta, um espaguete à bolonhesa no capricho. Tomamos um chá quentinho e fomos pra barraca apreciar o céu, que nunca vi na minha vida de tantas estrelas, inclusive cadentes, aos montes… Nessa noite, pensando sobretudo como ia ser caiu a ficha, iríamos ficar oito dias completamente desconectados, sem receber qualquer notícia, bateu aquele desespero, e se acontecer alguma coisa com meus filhos, minha família… tenso, mas relaxei depois que me lembraram que tínhamos um rádio e que a agência dava qualquer notícia caso necessário. Agora tranquilizada, bora pra uma primeira noite de sono em uma barraca, sabe como é né? Nada muito confortável, mas, só de estar ali debaixo daquele céu e no meio de nada, zero ruído de cidade, não tem preço.(…)

Na aldeia, as malocas indígenas aos poucos cedem espaço a casinhas de paredes brancas cobertas com folhas de zinco. Elas sinalizam mudanças, com seu estéril reboco caiado, suprimindo séculos de tradição em troca de um precário conceito de progresso. “Estamos perdendo nossa cultura”, disse nosso guia. E explica que hoje em dia os mais novos não procuram mais os xamãs (líderes espirituais) e complementa: “Mas todos nós sabemos que o Monte Roraima é a morada do deus Macunaíma”.

Agora já o 4×4 nos esperava, juntamos a turma para a tradicional foto, agora uns cinco quilos mais magros e com uma bagagem de gratidão enorme!

Apesar dos sinais de modernidade, os mitos ainda ecoam nos vales que entremeiam os tepuis, seja nas lendas vividas pelos pemons, seja na experiência dos homens que sem motivo aparente buscam o alto de uma montanha. Todo o ritual de preparação, o ato da subida e a busca pela imensidão nos revelam um encontro com o próprio ser e com a origem da vida. Mera conquista ou uma tentativa de transcender?

(A viagem, na íntegra, pode ser acessada aqui pelo site, no ícone Revista Chique! através da capa de Flávio Osamu)

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