Cuidado especializado e humanizado transforma a vida de crianças com autismo

Celebrado nesta quinta-feira (2), o Dia Mundial de Conscientização do Autismo reforça a importância do diagnóstico precoce, do acompanhamento especializado e da inclusão das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mais do que ampliar o conhecimento sobre o tema, a data convida a sociedade a olhar com mais empatia para as famílias e crianças que vivem essa realidade, mostrando que o cuidado humanizado e multidisciplinar pode transformar trajetórias e abrir caminhos para o desenvolvimento e a autonomia.

O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por desafios na comunicação, na interação social e por comportamentos repetitivos ou interesses restritos. Embora o tema esteja cada vez mais presente no debate público, especialistas alertam que ainda existem muitos mitos e generalizações, já que cada pessoa com autismo apresenta características próprias.

De acordo com o médico psiquiatra do Hospital Márcio Cunha, Arthur Lobato, compreender essa individualidade é um dos pilares do cuidado. “O cuidado humanizado é muito importante no desenvolvimento e na autonomia da criança, porque cada ser humano responde de uma forma. Um conceito pode funcionar para um e não funcionar para outro. Por isso, o tratamento precisa ser individualizado. Ainda mais quando falamos de uma criança com autismo. Não existe um autista igual ao outro, cada um tem suas características, seus interesses e suas formas de se expressar”, destaca o médico.

Segundo ele, esse cuidado não envolve apenas os profissionais de saúde, mas também a família, a escola e todos que fazem parte do convívio da criança. “O cuidado humanizado precisa estar presente em todos os ambientes: na família, na escola e nas terapias. Essa integração é fundamental para que haja uma verdadeira inclusão desse paciente na sociedade”, explica.

Outro ponto essencial no tratamento é o diagnóstico precoce. Nos primeiros anos de vida, o cérebro passa por um período intenso de desenvolvimento, o que torna essa fase estratégica para estimular habilidades e favorecer a aprendizagem. “O diagnóstico precoce é muito importante porque estamos falando do desenvolvimento cerebral. Nos primeiros anos de vida ocorre um crescimento muito grande de neurônios e sinapses. Quanto mais cedo essa criança for estimulada, maior será a capacidade de aprendizado e desenvolvimento”, ressalta o psiquiatra.

Na prática, o tratamento envolve uma abordagem multidisciplinar, reunindo profissionais de diferentes áreas. Fonoaudiólogos atuam no desenvolvimento da comunicação e da linguagem; psicólogos auxiliam no manejo das emoções e frustrações; terapeutas ocupacionais trabalham habilidades do cotidiano e coordenação motora; enquanto a psicomotricidade contribui para o desenvolvimento motor e da escrita. O acompanhamento psiquiátrico também pode fazer parte do processo, avaliando, quando necessário, o uso de medicamentos.

Além do acompanhamento profissional, a tecnologia tem se mostrado uma aliada importante no cuidado de crianças com autismo, especialmente na comunicação e no acesso a tratamentos. “Hoje temos ferramentas que ajudam na comunicação. Existem aplicativos em tablets em que a criança pode clicar em botões para expressar necessidades, como dizer que está com fome, por exemplo. Mesmo sem falar, ela consegue se comunicar. A tecnologia também facilita o acesso a consultas online, o que amplia o atendimento especializado”, explica o médico.

Para as famílias, o diagnóstico costuma marcar o início de uma jornada de adaptação, aprendizado e superação. A auxiliar administrativa Ariadnei Patricia Teixeira, mãe da estudante Luiza Vitória, de 12 anos, lembra que a confirmação do autismo da filha trouxe muitos sentimentos ao mesmo tempo. Sua filha foi diagnosticada aos oito anos, após anos de acompanhamento médico. “Foi um momento de susto e de luto. Nem tudo são flores nessa caminhada. Achávamos que nossos planos para nossa caçulinha tinham sido frustrados. Com o tempo entendemos que os sonhos continuavam ali, apenas de uma forma adaptada”, relata.

A rotina da família precisou mudar e os desafios foram muitos, especialmente no início da jornada. “Os desafios foram enormes, desde a aceitação até a busca pelos melhores tratamentos e terapias. Também enfrentamos olhares e julgamentos da sociedade. A adaptação na escola foi um dos maiores desafios, com diálogo constante com a coordenação e professores para evitar prejuízos para a Luiza”, conta.

Com o acompanhamento especializado, a família começou a perceber avanços importantes no desenvolvimento da menina. “A psicóloga, a fonoaudióloga e a terapeuta ocupacional fazem toda a diferença. Esse acompanhamento nos orienta e nos ajuda a lidar com as situações do dia a dia”, afirma.

Hoje, no 8º ano escolar, Luiza coleciona conquistas que emocionam a família. Pequenos gestos e avanços, muitas vezes simples para outras pessoas, representam grandes vitórias. “Um abraço, um elogio da escola, uma boa nota, a participação nas atividades e as amizades conquistadas têm um valor enorme. A inclusão de um filho autista é uma das maiores conquistas”, diz a mãe.

Para Ariadnei, a mensagem para outras famílias que estão iniciando essa caminhada é clara: acolher, amar e lutar. “Primeiro aceite seu filho da maneira que ele é. Depois ame. E por último lute. O autismo não tem cara, não tem classe social e não precisa ser romantizado. Ele precisa ser levado a sério e respeitado”, afirma.

Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento, especialistas e familiares reforçam que ainda há um longo caminho para ampliar a compreensão da sociedade sobre o autismo. Informação, acolhimento e acesso a acompanhamento especializado seguem sendo fundamentais para garantir que cada criança com TEA possa desenvolver seu potencial e viver com dignidade e inclusão.

 Hospital Márcio Cunha

Hospital geral de alta complexidade com 60 anos de atuação. Possui 558 leitos e três unidades, sendo uma unidade exclusiva para o tratamento oncológico. Atende a uma população de mais de 1,6 milhão de habitantes de 87 municípios de Minas Gerais e conta com cerca de 500 médicos em 58 especialidades, com prestação de serviços nas áreas de ambulatório, pronto-socorro, medicina diagnóstica, ensino e pesquisa, terapia intensiva adulta, pediátrica e neonatal, urgência e emergência, terapia renal substitutiva, alta complexidade cardiovascular, oncologia adulto e infantil, entre outros. No último ano, foram cerca de 5.580 partos realizados no HMC, cerca de 35 mil internações, mais de 17 mil cirurgias, mais de 67 mil sessões de hemodiálise. Na unidade de oncologia, foram mais de 18 mil sessões de radioterapia e cerca de 33 mil sessões de quimioterapia.

O HMC foi o primeiro hospital do país a ser acreditado em nível de excelência (ONA III), pela Organização Nacional de Acreditação (ONA). Além disso, está classificado pela revista norte-americana Newsweek, por sete anos consecutivos, entre as melhores unidades hospitalares do Brasil, sendo o 6º em Minas Gerais.

 

 

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