Não só a cidade de Belo Horizonte está em festa, mas todo o Brasil, com a conquista do Conjunto Arquitetônico da Pampulha como “Patrimônio Mundial da Humanidade”. A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura decidiu em Istambul, na Turquia, a atribuição do título para a linda obra criada por Niemeyer na década de 40. Marcelo Calero, Ministro da Cultura, foi quem confirmou a boa notícia na manhã deste domingo (17) utilizando seu perfil no Twitter. Eram 6h41 quando o ministro postou: “Viva! Pampulha Patrimônio Mundial!”
O conjunto de obras na Pampulha é considerado um marco da arquitetura moderna da década de 40 para o mundo.
As obras ocorreram entre 1942 e 1944 a pedido de Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, com o objetivo de tornar a cidade de vanguarda mundial, além de desenvolver novas áreas mais afastadas do centro da cidade. No projeto encomendado por Juscelino, havia um conjunto de edifícios em torno do lago artificial que seria criado. Em torno da Lagoa haveria um Cassino, uma Igreja, uma Casa de Baile, um Clube e um Hotel. À exceção do hotel, o conjunto se concretizou com a inauguração em maio de 1943.
Talvez a principal obra do complexo da Pampulha, a Igreja São Francisco de Assis, mais conhecida como Igreja da Pampulha seja um local a parte, com bastante originalidade na arquitetura. Emoldurada pelas águas da lagoa, a igrejinha reúne as genialidades do arquiteto Oscar Niemeyer, do paisagista Burle Marx e do pintor Cândido Portinari em suas paredes. Essa combinação gerou a construção em linhas curvas totalmente revestidas por azulejos azuis tais quais os clássicos portugueses e pelos painéis que retratam a Via Sacra e a imagem de São Francisco.
No entanto, a modernidade de suas curvas causou um forte impacto na sociedade à época. As autoridades eclesiásticas não permitiram de imediato a consagração da capela devido à sua forma nada convencional para uma igreja, e ao painel de Portinari, onde se vê um cachorro representando um lobo junto a São Francisco de Assis. Por quase uma década e meia foi proibido o culto na igreja. Seu interior abriga a Via Sacra, constituída por 14 painéis de Cândido Portinari, considerada uma de suas obras mais importantes. No exterior estão belos jardins, assinados por Burle Marx.
Outro edifício importante do Conjunto da Pampulha é o antigo cassino, atual Museu de Arte Moderna, primeiro prédio do conjunto a ser construído. De imediato à sua inauguração, o cassino da Pampulha passou a receber pessoas de todo o país, transformando assim o cenário da noite belo-horizontina. Grandes artistas, renomados no Brasil e no exterior, que já haviam atuado nos Cassinos da Urca no Rio de Janeiro e no Palácio Quitandinha de Petrópolis vieram a Belo Horizonte.
Os tempos de glória do Cassino da Pampulha, porém, duraram pouco. Em abril de 1946, o governo do presidente General Eurico Gaspar Dutra proibiu o jogo em todo o Brasil. Após alguns anos de abandono, o cassino passou a funcionar como museu a partir de 1957. Em seu acervo, o destaque maior são obras da arte contemporânea brasileira. Exposições de artistas renomados como Guingnard, Camile Claudet, Salvador Dalí, Pablo Picasso entre outros, já aconteceram no museu.
Niemeyer conta o que fez com muita rapidez “fiz este projeto em uma noite, não tive alternativa. Mas quando funcionava como cassino, cumpria bem suas finalidades, com seus mármores, suas colunas de aço inoxidável, e a burguesia a se exibir, elegante, pelas suas rampas.”
Na outra margem, o Iate Tênis Clube “é uma casa-barco de linhas duras que se lança sobre as água tranquilas da lagoa”, define o arquiteto Niemeyer. Com jardins de Burle Marx e revestido com os mesmos azulejos do Cassino, o Iate se propunha a ser um local de lazer para a família, com ênfase nas atividades esportivas, principalmente as náuticas.
O Conjunto Arquitetônico de Niemeyer exibe ainda a Casa do Baile. Inaugurada em 1943, ela tem uma peculiaridade em relação ao restante do complexo, pois é a única construção que se encontra totalmente sobre uma ilha artificial ligada à orla apenas por uma pequena ponte feita de concreto. Criada para ser espaço de lazer e entretenimento nas noites de BH, a Casa do Baile rapidamente tornou-se palco de atividades musicais e dançantes. Na década de 40, era o lugar onde a alta sociedade se encontrava para grandes bailes e festas. Frequentar o local era, antes de qualquer coisa, um símbolo de status. Com a proibição do jogo que inviabilizou o Cassino, encerrando de vez suas atividades, a antiga Casa do Baile acabou também fechando suas portas em 1948. Desde 2002 quando foi reaberta, a antiga Casa do Baile abriga um centro que discute Urbanismo, Arquitetura e Design, vinculado à Fundação Municipal de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte.
“Não é o ângulo reto que me atrai, nem a curva reta, dura, inflexível criada pelo homem, o que me atrai é a curva livre e sensual que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos rios, das ondas do mar, no corpo da mulher preferida, de curvas é feito todo o Universo, o Universo curvo de Eistein”, descreve Niemeyer que assim inaugurou um gesto ousado do novo em projetos arquitetônicos no país. O Conjunto Arquitetônico da Pampulha foi o início de uma nova era da arquitetura não apenas no Brasil como em todo o mundo.
As fotos mostram um belíssimo cartão postal, mas quem visita a Pampulha fica decepcionado, diante do descaso com um local tão importante, principalmente agora que é “Patrimônio Mundial da Humanidade”.









