Esta matéria foi publicada originariamente na revista Forum, e você pode ler na íntegra através do link https://revistaforum.com.br/moda-e-politica/alta-costura-herancas-e-desigualdade-quem-paga-a-conta-do-luxo-no-brasil/
Ela é um retrato do que se vê nas redes sociais, onde bilionários desocupados encantam cada vez mais seguidores com suas viagens mirabolantes, compras de valores estratoféricos, festas espetaculares e, agora mais do que nunca, mesas postas e arranjos florais, nova febre entre a alta classe. Ao exemplo dado pela autora do texto eu acrescento o nome de Marcelo Antunes, herdeiro da viação 1001, das balsas que fazem o trecho Rio-Niterói, entre outras empresas, que viu seu número de seguidores passar de 4 mil para 100 mil após ele postar a festa de R$10 milhões que ele deu em Portofino, na Itália, para comemorar os 40 anos. Tudo preparado pelo Domenico Dolce, ele mesmo, da Dolce & Gabbana. Hoje ele comanda um canal no YouTube, onde apresenta visistas que faz a amigas igualmente ricas ora em suas casas de campo, ora na cozinha, preparando delícias. E a plebe adora! 
Marcelo Antunes
O texto abaixo é de Iara Vidal, jornalista que atua em Brasília desde 1995, tem experiência em redação, em comunicação corporativa e comunicação pública, em assessoria de imprensa, em produção de conteúdo, campanha política e em coordenação de equipes.
Vale a pena a leitura:
Eu costumo dizer que a moda é a filha predileta do capitalismo — e talvez o espelho mais nítido de suas contradições. A alta-costura, por exemplo, não é feita para gente comum: representa o auge da exclusividade e do luxo extremo — e parte desse mercado milionário também desfila por aqui, no Brasil. Esse contraste deixa evidente por que o país ainda precisa avançar muito em justiça tributária, como propõe a campanha Taxação BBB — Bancos, Bilionários e Bets, que defende que os super-ricos contribuam proporcionalmente mais do que hoje pagam.
egundo o FFW, um dos principais portais de jornalismo de moda do país, parte desse guarda-roupa de luxo também circula aqui. Um exemplo é Giovana Bartelle, 51 anos, herdeira da Grendene. Filha de Alexandre Grendene Bartelle, empresário bilionário e cofundador da companhia, ela ganhou projeção pelo estilo de vida de altíssimo padrão: presença constante em desfiles, viagens internacionais e festas de gala.
Sem ocupar cargo executivo na empresa, ela se apresenta como empresária e influenciadora, usando as redes sociais para mostrar sua rotina de alto luxo. Giovana simboliza como parte dos lucros bilionários de grandes grupos — distribuídos como dividendos generosos — acaba financiando estilos de vida ultraexclusivos, enquanto o debate sobre justiça fiscal segue cada vez mais urgente no Brasil.
Os valores das peças que estão no armário de Giovana impressionam: um vestido “simples” de alta-costura começa em US$ 50 mil (cerca de R$ 255 mil). Modelos mais elaborados podem chegar a US$ 800 mil (cerca de R$ 4,1 milhões), principalmente quando incluem bordados manuais que podem exigir até 800 horas de trabalho artesanal.
Para ter uma ideia do contraste: um trabalhador brasileiro que ganha um salário mínimo (R$ 1.412) precisaria de 15 anos de renda bruta (sem gastar um centavo) para bancar o vestido mais “básico” da alta-costura — o equivalente a 181 salários mínimos.
Outro dado relevante mostra que o Brasil é o segundo país com o maior volume de riqueza a ser herdada nas próximas décadas — uma tendência que reforça a manutenção das desigualdades patrimoniais entre gerações.
A história da Grendene ilustra bem como funciona essa engrenagem. Dona de marcas como Melissa, Ipanema, Rider e Zaxy, o grupo é um gigante do setor calçadista, listado na bolsa de valores brasileira, a B3, exporta para dezenas de países, tem fábricas no Ceará e no Rio Grande do Sul — e, em 2023, fechou o ano com lucro líquido superior a R$ 900 milhões, distribuindo dividendos generosos aos acionistas, entre eles a família Bartelle, da herdeira que consome vestidos de alto-luxo.
Esse exemplo mostra exatamente o que a campanha Taxação BBB denuncia: que superfortunas pagam, proporcionalmente, menos impostos do que trabalhadores e pequenos negócios. O dinheiro acumulado pelos lucros das grandes empresas se transforma em patrimônio concentrado nas mãos de poucos. São herdeiros, grandes acionistas e investidores que reinvestem parte desse lucro — mas também gastam outra parte em itens de luxo extremo, como iates, imóveis milionários e peças de alta-costura que custam centenas de milhares de reais.





