A Newsletter da Elle Brasil chega pra mim toda terça-feira, me enchendo de notícias coloridas, dessas que fazem a gente esquecer as agruras da política brasileira. Moda, beleza, viagens, só coisa boa! E o @_luigitorre é diretor de reportagem de moda da ELLE Brasil é um dos que assinam as matérias. Aqui vai mais uma dele:
Há exatos sete dias, a Zara anunciou uma parceria de dois anos com John Galliano. Por ora, sabe-se pouco sobre o projeto: apenas que a primeira coleção será lançada em setembro e que o estilista vai “desconstruir e reconfigurar” peças do arquivo da marca em um processo de “reautoria”.
O que isso significa? É difícil dizer com certeza. Tudo indica que ele irá vasculhar o que a Zara já produziu de mais interessante ou relevante, selecionar algumas peças e usá-las de base para novas criações “guiadas por processos de alta-costura” e pelo seu olhar e estilo.
É upcycling? Não. O reaproveitamento é de design. Um ou outro tecido pode ser reciclado ou proveniente de estoque morto, mas o volume de produção da varejista inviabiliza uma coleção 100% feita de materiais já existentes (pelo menos sem grandes mudanças na estrutura e sistema das cadeias produtivas).
Como tudo começou? O match da Zara com John Galliano é obra de Marta Ortega Perez, que aparentemente não dá ponto sem nó. Marta é filha de Amancio Ortega, fundador da grife e do grupo Inditex, hoje responsável por seis outras marcas (entre elas a Bershka, recém-chegada ao Brasil). Ela se tornou presidente da empresa em 2022, mesmo ano em que lançou uma fundação de arte homônima.
Desde então, a sede da instituição em Corunha, Espanha, recebe exposições robustas de grandes nomes da fotografia de moda. A primeira foi com Steven Meisel, seguida por Helmut Newton, Irving Penn, David Bailey e, mais recentemente, Annie Leibovitz. Foi em uma dessas mostras que ela e Galliano estreitaram relações.
Marta é uma das principais articuladoras do reposicionamento da Zara no mercado. A percepção elevada no design dos produtos, a linguagem e as imagens refinadas, a aproximação com profissionais de moda renomados — tudo tem dedo seu. A estratégia visa distanciar a etiqueta das ultra fast fashion, como Shein e Temu, com credibilidade e respaldo de agentes influentes em círculos mais exclusivos da indústria.
O que a parceria tem de especial? Bom, tem John Galliano. É o primeiro trabalho do estilista desde sua saída da Maison Margiela, em 2024. Ele ficou lá por dez anos como diretor de criação e, nesse período, quintuplicou o faturamento da empresa. É também uma parceria um pouco diferente para a Zara. As collabs recentes – com Stefano Pilati, Narciso Rodriguez, Ludovic de Saint Sernin e Willy Chavarria (anunciada ontem e com lançamento em 26.03) – foram pontuais. O contrato com o britânico é de dois anos. (Diferentemente de Clare Waight Keller, que já comandou a Chloé e a Givenchy e hoje está na Uniqlo, e de Zac Posen, atualmente na GAP, John Galliano não é diretor criativo da Zara.)
É um sinal de mudanças no mercado de luxo? Não é para tanto. É outro consumidor, outro produto, outra marca. Nenhuma cliente da Dior, Chanel ou Hermès vai deixar de comprar porque gastou todo seu dinheiro na Zara. Por ora, o foco dos players do segmento de luxo são os consumidores de alto poder aquisitivo. A situação financeira de um monte de gente que até o fim da pandemia conseguia comprar uma bolsa, um tênis ou um moletom grifado não melhorou.
John Galliano para Zara fala mais sobre as transformações no mercado de fast fashion. A competição está acirrada com a expansão de negócios como Shein e Temu. Uma alternativa é se destacar com imagem, produto e comunicação elevada. A estratégia, contudo, é complexa. Não dá para imitar ou replicar o apelo das marcas de luxo. Elas operam sob forças específicas de status e reconhecimento. Uma etiqueta com o nome Zara nunca terá a mesma força (e significados) de uma com Prada. A abordagem precisa ser de outra perspectiva.
A Uniqlo não contratou Clare Waight Keller pela fama, mas pela sua capacidade de enaltecer e ampliar as qualidades da mercadoria. Estamos em um momento de reconfiguração de desejos e de percepções. A maneira como nos relacionamos e nos expressamos com o que vestimos está em transição. As temporadas de verão 2026 e inverno 2026 representam bem essa fase. Há um interesse renovado em moda e suas possibilidades para além do branding e da supermassificação homogênea.
John Galliano falou disso antes de todo mundo (se é que algum dia deixou de falar) com seu último desfile para a Maison Margiela, no verão 2024 de alta-costura. Aquela apresentação mudou tudo. Provavelmente foi o gatilho para as mudanças estratégicas e de direção criativa que acompanhamos recentemente. E foi assim porque mexeu com sentimentos muito íntimos. Lembrou que luxo e moda são coisas distintas. Luxo tem a ver com dinheiro, riqueza, status. Moda é sobre design, inovação, estilo, visão, gosto, identidade.





