ZEFERINO GANHA MAIS UM PRÊMIO PELO O GRANDE VIZINHO

A paisagem peculiar da cidade de Ipatinga, centro econômico-industrial do Vale do Aço mineiro, foi tema de uma abordagem visual do fotógrafo e artista Rodrigo Zeferino, no período entre os anos de 2016 a 2018. O resultado desse trabalho, que mistura uma linguagem de fotografia documental sob uma perspectiva artística, foi um ensaio digno de receber, em 2017, o 1º lugar na maior premiação da fotografia brasileira, o Prêmio FCW, oferecido pela Fundação Conrado Wessel de São Paulo.

Dois anos depois, o trabalho autoral criado pelo artista ipatinguense, acaba de ser laureado novamente, desta vez com o Prêmio Foto em Pauta, oferecido pela organização do Festival homônimo, que acontece anualmente na cidade histórica de Tiradentes.

Diferente do FCW, no qual três artistas selecionados ganham uma quantia em dinheiro, o Prêmio Foto em Pauta escolhe apenas um entre dezenas de autores que pretendem publicar seu trabalho em formato de fotolivro. O ganhador tem todos os custos de sua publicação (editora, projeto gráfico, impressão em gráfica de alto padrão) bancados pelo prêmio.

Dentre as cláusulas do edital, contudo, há uma importante exigência: somente são aptos a concorrer fotógrafos que ainda não tenham publicado um livro de fotografia em sua carreira. “Era o meu caso, há dois anos venho tentando publicar este ensaio em um livro, mas é difícil conseguir recursos para uma publicação deste porte, principalmente num país que nos últimos tempos vem minando suas bases culturais e não dá a mínima importância para a arte ”, afirma Zeferino em tom de desabafo.

Segundo ele, já havia conversas com editoras interessadas em publicar O Grande Vizinho, mas atualmente as empresas especializadas em livros de fotografia dificilmente bancam os custos e o autor em geral tem que correr atrás da grana. Os valores para se publicar um livro nos moldes sugeridos pelo prêmio podem ultrapassar os R$ 50 mil.

De acordo com as diretrizes do edital do Prêmio Foto em Pauta, após impresso o fotolivro, uma parte da tiragem é entregue ao artista e o restante fica com a organização, que trata de distribuir e fortalecer sua divulgação. “É um prêmio muito especial para mim, eu frequento o Festival desde o seu início, há 10 anos, já participei de diversas exposições lá, aprendi muito e ampliei minha rede de contatos. Tenho um carinho especial pelo evento e ganhar este prêmio é uma grande realização”, conta ele.

 

Primeiro mineiro

Esta é a 5ª edição do Prêmio Foto em Pauta, concebido pelo fotógrafo, jornalista e professor belorizontino Eugênio Sávio, que também é o organizador do festival de fotografia de Tiradentes.

Neste ano foram 73 concorrentes, de 13 estados brasileiros, e pela primeira vez um mineiro foi escolhido o melhor.

A comissão julgadora do prêmio é formada por Sofia Fan, diretora do Itaú Cultural, Márcia Blanco, da Ipsis Gráfica, Carlos Franco, editor da Revista ZUM especializada em fotografia, Isabel Santana Terron e Tiago Santana, da Editora Tempo d’Imagem, além do próprio Eugênio Sávio.

 

Lançamento

A próxima edição do Festival ocorrerá entre os dias 18 e 22 de março de 2020, quando será lançado o livro O Grande Vizinho, de Rodrigo Zeferino. O artista estará sentado em uma das mesas do festival na noite do sábado (21/03), vendendo e autografando sua obra, feliz da vida.

 

Uma visão crítica sobre produção e consumo

 

A série O Grande Vizinho foi construída ao longo de dois anos e consiste em duas fases distintas. A primeira parte do trabalho é uma leitura pessoal da paisagem peculiar da cidade de Ipatinga, no Vale do Aço mineiro – não por acaso, terra natal do artista.

Ipatinga surgiu em meados da década de 1960 e se ergueu ao redor de uma usina siderúrgica, a Usiminas, que acabara de iniciar suas atividades. Seu projeto arquitetônico foi pensado para ser uma área urbana que circula todo o perímetro da planta industrial, tendo seu skyline permeado por chaminés, gasômetros, torres e outras estruturas típicas da indústria siderúrgica. Neste caso, a fotografia é pensada como experiência capaz de problematizar a visualidade da cidade industrial.

Problematiza-se também a questão do consumo contemporâneo: Ipatinga é o ponto final de uma cadeia produtiva que nos últimos anos vem assumindo contornos cruéis. A cidade é destino de boa parte do minério arrancado das montanhas mineiras, que por sua vez é transformado em aço e devolvido à sociedade em forma de automóveis, smartphones, geladeiras etc.

Contudo, este é o mesmo minério, cujo processo de exploração trás consigo consequências ambientais e humanas já bem conhecidas. “Não sou contra a exploração mineral ou a existência de grandes indústrias. Nós consumidores somos todos corresponsáveis pela degradação do meio ambiente porque compramos e fazemos a roda girar. Acredito apenas que o consumo deva ser consciente. Se você quer trocar de carro e de celular todo ano, tem que saber quais são as consequências de estimular uma produção tão acelerada”, opina o artista.

 

Dentro da máquina

Na segunda fase, o artista opta por abordar o ângulo oposto. Após meses de negociação, a direção da empresa lhe dá passe livre para circular em todas as áreas da planta com surpreendente liberdade, algo inédito em sua história. Durante as visitas, surgem imagens que vão desde uma visão de dentro para fora (desta vez com a cidade no plano de fundo) até interpretações subjetivas dos maquinários, matérias primas e rejeitos gerados na usina.

O resultado são imagens fotográficas, em vídeo, sons captados e a coleta de materiais típicos de um ambiente siderúrgico.

Todo o trabalho ganhou uma exposição no Centro Cultural Usiminas entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018. A mostra também foi exibida em Vitória, na Leo Bahia Arte Contemporânea.