DUAS MULHERES, UMA CAUSA

A seguir, um artigo publicado recentemente e que me fez chegar às lágrimas, tamanho horror. Então repasso com os devidos créditos para vocês, Raquelitos e Raquelitas que são mais que leitores de gostosas futilidades…

A dupla é, no mínimo, inusitada. Casada com um astro de Hollywood, Amal Clooney é formada em direito pela Universidade de Oxford. Nadia Murad nasceu num vilarejo pobre do Iraque, e sonhava em ser professora. Amal é alta, deslumbrante e famosa a ponto de ser abordada por fãs no meio da rua. Nadia é mirrada, tímida e evita contato visual. Porém, entre a minoria Yazidi à qual ela pertence, a iraquiana é a mulher mais conhecida do planeta. Nadia simboliza a sobrevivência de um povo ameaçado de extermínio. Ela já foi escrava do Estado Islâmico (EI), e é praticamente a única vítima do grupo terrorista disposta a narrar, em público e quantas vezes for necessário, os escabrosos atos de violência que sofreu nas mãos dos jihadistas.

Especializada em direitos humanos, Amal é advogada de Nadia. Juntas, as duas estão trabalhando para levar os líderes do Estado Islâmico ao banco dos réus num tribunal internacional. Elas acusam a facção de cometer genocídio contra o povo Yazidi. A empreitada da dupla é resultado do embate entre a selvageria do radicalismo religioso medieval e a verdade, o estado de direito e o silencioso poder de influência de uma celebridade.

A história começa em agosto de 2014, quando Nadia tinha 21 anos e ainda era estudante. Naquele mês, integrantes do EI haviam tomado o vilarejo de Kocho, na planície de Nínive, onde a moça vivia. O bando chegou munido de armamento pesado, falando uma língua que os locais não entendiam.

Para os jihadistas, gente como Nadia e outros moradores da vila representam a pior sorte de infiéis. A crença religiosa dos Yazidi não segue um livro sagrado, e baseia-se num amálgama de tradições muçulmanas. Eles veneram um anjo-pavão caído das graças de Deus – fé que muitos muçulmanos igualam a um culto ao demônio.

Não se sabe ao certo quantas pessoas compõem a minoria Yazidi. Os cálculos variam entre 70 mil e 500 mil integrantes, a maioria deles habitantes do Iraque, embora alguns vivam na Síria e na Alemanha. O Estado Islâmico decidiu reduzir essa popupação a zero, lançando mão de conversões forçadas e tiros de Kalashnikov.
No dia 15 de agosto, os integrantes do EI acampados em Kocho mandaram toda a população da vila se reunir na única escola local, e em seguida separaram os homens das mulheres e crianças. Da janela do segundo andar, Nadia observou os jihadistas empurrarem os homens, em marcha, para fora da cidade. Em apenas uma hora, 312 Yazidis foram chacinados – entre eles, seis irmãos e meio-­irmãos de Nadia. As mulheres mais velhas, incluindo a mãe de Nadia, também foram mortas. As mais jovens e as crianças foram obrigadas a entrar em ônibus que as levaram para Mosul, principal reduto do EI no Iraque (no momento em que esta reportagem foi publicada pela revista britânica 1843, Mosul estava sitiada pelas tropas do governo iraquiano).

Nadia ficou presa num edifício, ao lado de outras mil famílias. Apavoradas, as mulheres sabiam o que estava por vir: os jihadistas iriam dividir o butim. Um homem se aproximou e disse que ia ficar com ela. Nadia ergueu os olhos e viu um sujeito enorme, “monstruoso”. Ela relembra: “Gritei, disse que eu era jovem demais e ele era muito grande. O homem me espancou, me deu pontapés. Minutos depois, veio outro, um pouco menor. Implorei para ir com ele”.

O terrorista levou Nadia e disse que ela teria de se converter ao islamismo. Ela se recusou. Um dia, o homem pediu a mão da moça “em casamento”. Nadia disse que estava doente. Tempos depois, ele a obrigou a vestir uma roupa arrumada e passar maquiagem. “Naquela noite terrível, aconteceu.”

A partir daquele dia, Nadia seria estuprada diariamente. Ela tentou fugir, mas foi pega por um guarda. Como castigo, foi levada a uma sala cheia de rebeldes e obrigada a ficar nua. “Eles cometeram aquele crime até eu desmaiar.” Certo dia, o sequestrador esqueceu a porta destrancada, e ela finalmente escapou. Nadia não podia voltar para casa, porque o Estado Islâmico ainda ocupava a vila. Depois de uma longa viagem, ela conseguiu asilo na Alemanha, onde vive atualmente.

Amal Clooney foi a primeira pessoa a me contar a história de Nadia, durante uma entrevista que fiz com ela para outra reportagem. (Era um artigo sobre liberdade de expressão: Amal tinha se juntado a outra cliente, a jornalista Khadija Ismayilova, autora de diversos artigos que expuseram casos de corrupção do Azerbaijão. Khadija havia acabado de sair da cadeia em seu país, presa após um julgamento duramente criticado por organizações de direitos humanos.) Durante um almoço num clube fechado no bairro de Notting Hill, em Londres, Amal falou de Nadia e explicou que as duas estavam planejando levar os chefes do Estado Islâmico a julgamento.

A advogada ressaltou que as evidências de genocídio são incontestáveis. Existem covas coletivas e testemunhas oculares. E mais: o próprio Estado Islâmico se gabou publicamente do projeto de extermínio, filmando os massacres e publicando os vídeos na internet. No caso dos Yazidis, o material de propaganda do EI era de uma clareza aterradora. Na Dabiq, a newsletter do grupo terrorista, um texto afirmava que “a existência perene dessa minoria pagã (…) deve ser questionada pelos muçulmanos, já que isso será considerado no Julgamento Final”.

Outro folheto dizia que a escravidão de mulheres kuffar (infiéis) está prevista na sharia, a lei islâmica. O material trazia respostas para perguntas aparentemente recorrentes:

>>> “É permitido espancar uma escrava?” Resposta: “Sim”.

>>> “É permitido ter relações sexuais com uma escrava que ainda não chegou à puberdade?” Resposta: “Sim. Entretanto, caso ela não esteja apta para relações sexuais, basta desfrutar dela de outras formas”.

>>> “É permitido vender uma escrava?” Resposta: “Sim. É permitido comprar, vender ou oferecer escravas de presente. Elas são como qualquer outro bem”.

A despeito de tantas provas acachapantes, não será fácil colocar os líderes do EI no banco dos réus. Em primeiro lugar, é difícil prendê-los. Além disso, o direito internacional é lento, e costuma enfrentar obstáculos geopolíticos.

Para Amal, a principal prioridade é reunir o maior número possível de evidências, antes que elas desapareçam. Parte da tarefa é realizada pela própria advogada, que grava dolorosas entrevistas com sobreviventes (“são os depoimentos mais lancinantes que já colhi na vida”, afirma). Enquanto isso, Amal pressiona o Conselho de Segurança da ONU para que determine uma investigação formal, in loco – com direito a um orçamento que permita abrir as covas coletivas, recolher amostras de DNA e outras provas (como certificados de posse de escravas).

NÃO SERÁ FÁCIL SUBMETER OS LÍDERES DO EI À JUSTIÇA. O DIREITO INTERNACIONAL É LENTO E CHEIO DE OBSTÁCULOS GEOPOLÍTICOS
Para ela, o ideal seria julgar os chefes do Estado Islâmico no Tribunal Penal Internacional (TPI) – uma câmara mundial de juízes, dedicada permanentemente aos direitos humanos, com sede em Haia, na Holanda. “Se o TPI não for capaz de processar o mais cruel grupo terrorista do mundo, qual é então sua função?”, pergunta. A advogada, porém, considera outras alternativas. Uma delas seria um tribunal híbrido, sustentado pela ONU e pelo governo do Iraque. Mas essa opção só seria aceita caso atendesse aos padrões da Justiça internacional.

Outra dificuldade é garantir a colaboração de diferentes governos. A priori, boa parte das nações concorda com a proposta de julgar o EI. Rússia e Iraque, porém, estão evidentemente tensos em relação às possíveis descobertas de uma investigação. Outros países empurram o tema com a barriga (sendo a Grã-Bretanha uma honrosa exceção). Amal está tentando expor a posição desses Estados, com o objetivo de constrangê-los diante da comunidade internacional e fazê-los agir.
Pessoalmente, Amal é doce, encantadora e dona de um raciocínio rápido. Perguntou pela minha filha de 13 anos, lembrando que a pequena estuda no colégio para meninas que ela mesma frequentou na infância. Amal falou de questões jurídicas com grande precisão, e depois me enviou e-mails relacionados à conversa, repletos de comentários pertinentes.

Em público, ela é do tipo que gosta de escrever os próprios discursos, declamados com grande força e firmeza. A fala na ONU, em setembro passado, foi do tipo arrasa quarteirão. A advogada subiu ao púlpito depois de Nadia. Lembrou aos membros da Assembleia que o mercado de escravos no qual sua cliente foi negociada ainda estava em funcionamento – e que nenhum integrante do Estado Islâmico foi a julgamento pelos crimes cometidos contra os Yazidis.

“Esta é a primeira vez que tenho a oportunidade de me dirigir a uma plateia diante do secretário-geral da ONU. Eu gostaria de poder dizer que estar aqui é motivo de orgulho. Infelizmente, não é assim”, declarou. “Na condição de apoiadora da Organização das Nações Unidas, acho vergonhoso que os países estejam fracassando na tarefa de evitar ou ao menos punir o genocídio, impedidos por interesses próprios que se interpõem. Na condição de advogada, acho vergonhoso não haver justiça ou qualquer reclamação oficial sobre o tema. Na condição de mulher, acho vergonhoso que meninas como Nadia sejam vendidas e usadas em campos de batalha. E, na condição de ser humano, acho vergonhoso que os pedidos de ajuda dessas pessoas estejam sendo ignorados.”

O caso pode levar anos para chegar a um desfecho. Talvez, depois que os investigadores escavarem algumas covas coletivas e recolherem certificados de posse de escravas, a pressão para levar os criminosos ao tribunal se torne insustentável. É o que espera Amal. Nadia, por sua vez, promete que não vai desistir. “Cada um deles tem de ser julgado”, afirma.

ROBERT GUEST (PUBLICADO ORIGINALMENTE NA THE ECONOMIST 1843) E BEATRIZ VELLOSO
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