DA CHIQUE! SETEMBRO 2016: MICHELE RIBEIRO, WHO IS THAT GIRL?

Esta entrevista que publico hoje foi pauta da revista CHIQUE! de setembro/2016, e narra a trajetória dessa mulher ímpar, corajosa, dedicada e amorosa:

Puro Glamour

Cinderela moderninha não calça sapatinho de cristal; ela pisa firme na passarela da vida usando um Louboutin salto 15, meus queridos. E abram alas que ela quer passar por todos os tapetes vermelhos da vida, usando o perfume Chanel 22, aquele exclusivíssimo que você só adquire nas lojas da marca e, mesmo assim, tem que ter o cadastro VIP. Mais chique impossível!

MICHELE RIBEIRO

A moça simples que ganhou o mundo e fez história

A vida nem sempre sorriu para Michele Ribeiro. De uma infância desprotegida e sem referências familiares, foi da tia-madrinha que a menina nascida em Belo Horizonte descobriu, aos 15 anos, em Timóteo, o colo necessário para criar nela uma total força de trabalho que tudo o que veio depois teve como ponto de partida o foco no desejo de progredir. As vindas esporádicas nas férias transformaram-se em residência fixa, e foi aqui que, levada pelas mãos de uma prima, Michele iniciou a carreira de manicure, no Salão de Fátima Amorim. Ela não se limitou ao que sabia. Passo a passo, foi aprendendo com Fátima as outras funções de uma profissional de beleza, como corte e tintura de cabelo, escova definitiva, penteados, horário de almoço transformados em aulas práticas.

Aos 18 anos, foi morar sozinha. Jamais atrasou um compromisso de trabalho, mesmo que fosse direto da balada para o salão. Mas histórias são feitas de emoções. Michele apaixonou-se e, somente dois anos mais tarde, soube que o rapaz tinha uma família. Como ele trabalhava à noite, nunca pensou nesta hipótese. Num belo dia, a notícia da gravidez, surpresa que inauguraria um novo tempo em sua vida, um tempo de amor incondicional, de cuidados e atenção exclusiva ao pequeno Pedro, seu primeiro grande amor.

No salão da Fátima Michele fez grandes amizades, duas delas que se pode chamar de “anjos da vida”(eles, os anjos, a acompanharão ao longo desta história), como Zanza Castro e Inês. Foram elas e as outras todas que entregaram o enxoval do bebê prontinho para a chegada de Pedro, e por um ano e meio a mamãe Michele não precisou comprar fraldas descartáveis: foram seis porta-malas, dos grandes, lotados de pacotes, resultado do chá de bebê. Seis meses depois, despediu-se de seu emprego, não sem antes agradecer à Fátima, que lhe estendeu a mão, ensinou-lhe os primeiros passos profissionais, serviu de norte para que, dali por diante, Michele pudesse trabalhar por conta própria, agora alugando cadeira, uma prática comum nos salões de beleza.

Sabem aquela percepção que passa como um pensamento e, se a gente não der asas a ele, não volta mais? Neste caso, as palavras saíram da boca não de uma, mas de duas dessas mulheres sábias, “irmãs” que olham e dizem coisas que acontecerão, essas que nos impulsionam a seguir em frente decifrando enigmas… Profetizaram até o casamento com um homem que falava línguas estranhas e o tapete vermelho onde Michele pisaria estavam lá, nas imagens lidas por elas! Pois foi o que serviu de inspiração para Michele, ao receber um desafio do amigo Bruno, filho de Zanza, ele mesmo passageiro da aventura de construir um patrimônio na Europa, numa época em que Itália, Portugal, Espanha e Inglaterra era aonde iam todos os que, ou eram curiosos, como ele, ou não tinham chance de estudar e fazer carreira no Brasil.

O filhinho já com três anos, as perspectivas se esvaindo e um destino fincado em muita luta e poucos recursos financeiros se delineando como futuro certo… Certo? De jeito nenhum, no caso dessa moça. Entregou o apartamento, voltou a morar com a tia, foi tecendo a colcha de sonhos em bem orquestradas ações, as passagens buscadas em Governador Valadares, todas as informações e instruções dadas a contento, porque se dependesse de um agente de Timóteo, ela nunca teria saído de Timóteo.

A amiga Inês, agora madrinha de Pedro, tomou pra si a sagrada função de assumir os cuidados com o menininho para que Michele voasse seu sonho, em silêncio, buscando recursos financeiros entre os mais improváveis… As malas ela fez num minuto, pois em sua mente elas foram feitas e desfeitas milhares de vezes. O trajeto já estava traçado: Itália, onde seria recebida por familiares de Zanza; depois Londres, quando o Bruno pudesse ir buscá-la em Roma.

A viagem de avião foi acompanhada de muito medo, muito enjoo, muita insegurança. E de um anjo (eu não disse que ela sempre foi acompanhada de anjos na vida?). O vizinho de poltrona, um brasileiro representante de laboratório em viagem de negócios, socorreu Michele com remédios, café e companhia, até que a separação fosse inevitável: o gate da imigração. À espera dela, dois policiais acompanhados de cachorros enormes vasculharam tudo, os cães farejando as bagagens, a vida toda passando pela cabeça dela, o que seria se não pudesse ficar? Liberada! Lá fora, encontrou os brasileiros que estavam à sua espera, a imediata empatia, malas abertas e o material de trabalho que ela levou daqui já começou imediatamente a ser utilizado. O que era para serem três dias de estada se transformou em 15, porque o Bruno não pôde ir até Roma na data prevista. E Michele gostou tanto dali que não queria mais seguir viagem. Mas lembrou-se do que aquela “irmã” havia lhe dito: “Vá até o seu destino final”. E lá se foi a Michele para Londres. O Bruno havia avisado: “Não traga na mala nada que a comprometa”. Na chegada, foi parada pela imigração. O funcionário teimava em dizer que Michele estava no país à procura de trabalho, ela teimando que era empresária brasileira, proprietária de um salão de beleza, em férias pela Europa. Ele batendo no passaporte dela e dizendo que não entraria, ela lembrando-se dos quase 20 vidros de esmalte, do secador de cabelos, da prancha e dos produtos para execução de escova progressiva, das escovas, ai ai ai ai!!! Mas não se abalou. Sem falar mais que yes  e no, Michele foi desabafando como se tivesse sido desrespeitada em seu direito de pessoa humana vítima de racismo. E esperou mais de uma hora até que chamaram um angolano (olha aí outro anjo) que estava encerrando seu turno no momento e que se dispôs a ir traduzindo para eles tudo o que a moça dizia em alto e bom som, com tom ameaçador, vejam só a coragem. “Vocês vão para o Brasil, aproveitam nossas praias, adoram nosso Carnaval, são super bem recebidos e ainda saem falando mal do meu país! O que vocês estão fazendo é racismo e eu vou denunciá-los!” E repetia: “É racismo! É racismo! Agora quem não quer entrar sou eu” Audaciosa, essa Michele! E o angolano traduzindo. Ao final, a palavra das autoridades: “Ela entra, mas nós vamos revistar a mala”. Mais sufoco. E cadê a mala? Michele rodou o aeroporto de um canto ao outro, passou pelos balcões da companhia aérea, salto alto, exausta, insone, à beira do desespero, e mais uma vez se lembrou da “irmã”: “Você vai passar por grande dificuldade antes de chegar ao seu destino, mas não desista”. Mas Michele deu a última cartada: “Minha mala extraviou, não dou mais um passo, podem me deportar agora, que não espero nem amanhã pra voltar para o Brasil. E vou processar vocês.” Depois, silenciou e orou. Fez um propósito com Deus. Dois minutos depois, o funcionário que a atendia bateu o carimbo no passaporte dela dizendo: “Não me convenceu, mas vou deixar você entrar”.

Às três da manhã, sozinha no aeroporto, ligou para o Bruno (que já havia retornado para casa) e um amigo dele é que foi levá-la até a casa onde dividiam o aluguel com mais sete pessoas.

E a mala? Extraviou mesmo! Foram dois dias vestindo as roupas da mulher de Bruno, muito mais alta e magra que ela, e de outras que moravam no mesmo lugar, ao todo 12 pessoas. Dois dias depois, a vida foi começando a se delinear mais serena: a mala apareceu, Michele foi morar em outro lugar e, todas as manhãs, se sentava no ponto de ônibus, entrava em um, descia algumas paradas depois, tomava ele de volta, e assim foi assimilando os espaços, ganhando confiança, fazendo um reconhecimento do terreno. E descobriu que aquele bairro era muito afastado para seus propósitos de prestar serviço de manicure e cabeleireira. E foi o Bruno quem lhe indicou Hausdren, uma comunidade de brasileiros onde estão igrejas católica e algumas evangélicas, e onde está o açougue onde Michele compra carne sempre que está em sua residência de Londres. “A minha companheira de quarto foi outro anjo que me ajudou demais. Foi ela quem me passou documentos falsos para que eu pudesse abrir uma conta no banco. E era nos pontos de ônibus que distribuía os cartõezinhos feitos com papel de caderno e letra de forma, onde se lia Meu nome é Michele, faço unhas, cabelos, depilação. E o endereço. Em três meses, fui morar sozinha, porque precisava de espaço para as minhas clientes. A agenda estava sempre lotada e eu fazia de tudo, sem ajuda, de lavar e secar o cabelo a escova progressiva.”

Em um ano e meio, Michele levou o filho e a tia para Londres, fazendo o mesmo percurso Itália/Londres, com uma carta-convite de um amigo legalizado na Inglaterra. A imigração nem olhou quando eles desembarcaram na cidade. E o abraço do filho ela nunca irá esquecer. O choro de alegria, os pulinhos e gritinhos no estacionamento do aeroporto compensaram tudo o que ela sofreu para tê-lo ali.

Mas há um tempo em que os anjos nos deixam aprender com os erros dos outros, e assim foi. A boa condição de Michele em Londres suscitou desejos que nada têm de bem-querer, e a moça se viu sendo traída por quem deveria estar em seu lugar aqui no Brasil, cuidando dos negócios, no caso a compra de um apartamento no bairro Funcionários, em Timóteo. Confiança quebrada, decepção, transtornos, maledicência, Orkut falso, Michele sofreu calúnias que denegriam sua imagem e com uma tristeza profunda se viu obrigada a romper laços familiares até então inquestionáveis. Um inicial processo criminal foi aberto, mas a agora empresária não prosseguiu com a ação. Tirou tudo aquilo de si, limpou-se desse veneno que tão mal lhe fazia e até os remédios que se viu obrigada a tomar para se livrar de tanto sofrimento ela suspendeu. “Hoje, não desejo mal nem bem a essas pessoas. Não há um só sentimento meu em relação a eles.”

E a vida de Michele deslanchou. No bairro de brasileiros que ela frequentava Michele encontrou um conhecido, de Timóteo, que lhe deu os caminhos para um casamento, garantia de cidadania para ela e seu filho. Um amigo dele se prontificou, em pouquíssimo tempo lá estava Michele, linda e feliz com seu passaporte inglês. Esse mesmo rapaz a apresentou ao patrão, um italiano de 35 anos nascido na Inglaterra (Michele afirma que os italianos são tão orgulhosos de sua nacionalidade que mais vale a cultura e educação que receberam que o local de nascimento), um proprietário de restaurantes em Londres que adorava a cozinha brasileira. E os temperos da doce morena encantaram de vez o guapo. Foi um caso de amor que durou três anos. Michele engravidou do John, mas o pai do menino não chegou a conhecê-lo. Com problemas cardíacos, ele entrou em coma dez dias antes do nascimento do filho, e faleceu 12 horas depois da criança nascer.

“Quando eu achei que a minha vida estava como eu sonhei, desmoronou tudo de novo”, conta. A moça brava e guerreira arregaçou as mangas e trabalhou como nunca, agora para manter os dois filhos pequenos. Nisso, os anjos foram acordando, abençoando, iluminando para que, mais uma vez, Michele resgatasse o tempo entre a beleza a suas clientes. Foi quando conheceu Keith Webb, um cavalheiro para muito além da fleuma inglesa. O vice-presidente da empresa Cap Gemini é gentil, efusivo, alegre e divertido. E, acima de tudo, um apaixonado. Após um breve namoro, as incertezas que pairavam sobre o comprometimento com um compromisso fizeram com que Michele terminasse a relação e voasse, pela primeira vez, de volta ao Brasil. “Eu não sentia mais o vínculo com Timóteo, apesar de já ter adquirido outro apartamento na cidade, desta vez no bairro Bromélias”.

E, com a falta da amada, o Keith entrou em depressão. Do lado de cá do Atlântico, Michele olhava o que conquistou e começou a questionar sobre tudo: os imóveis, a cobertura de luxo, o vazio que a falta de Keith lhe trazia. E como ela tinha outro anjo na vida, a irmã adotiva que assumiu o trabalho com as crianças e o cuidado com a casa, nossa heroína decidiu dar mais uma oportunidade para o amor.

O trato foi feito com o emocionado Keith (mais uma vez, esqueça tudo o que lhe falaram sobre os sisudos ingleses). E como pessoas de atitude colocam os sonhos onde podem pegá-los, Michele projetou um tempo no Brasil, na Timóteo que lhe deu amigos como a Fátima Amorim, a Inês e a Zanza Castro (que, claro, é a madrinha do John), inaugurando recentemente o Glamour por Michele Ribeiro, um salão de beleza assinado por Thiago Salles, um espetáculo de bom gosto na arquitetura e decoração, para o qual ela preparou-se comme il faut, participando de um importante (e caro) curso de maquiagem e penteados em Londres.

O casamento, acontecido em agosto na Sede Campestre do Acesita Esporte Clube, era para ser apenas para os familiares, seus, de Keith (a irmã dele veio especialmente para a data) e de Zanza, a amiga de todas as horas, transformou-se em um acontecimento. A noiva vestiu modelo de Lidiane Silveira em renda, um primor! Os planos para o futuro incluem, talvez, um bebê. Já houve uma gravidez, mas resultou em aborto espontâneo, o que entristeceu muito a nossa Michele, uma mulher apegada aos filhos na máxima potência. Ela ainda se refaz do trauma, não descartando a possibilidade…

Para a inauguração da Glamour, Michele não economizou: encomendou o melhor do buffet Prima Pasta, de Cristina Lodi; pediu ao Batista, da Apogeu, que decorasse com elegância; contratou Maria Célia e Danielle, do Cerimonial Cálice, e recebeu os amigos estendendo pra eles um imenso tapete vermelho que atravessava a rua. Sobre ele, o tapete, lá estava ela, imbatível no Louboutin salto 15, brilho no vestido Caos para Express e nos olhos, que não deixavam dúvidas: ali estava uma moça feliz!

Agora, são três meses no Brasil, um, dois, na Inglaterra, Michele e Keith entre idas e vindas, construindo uma história que não precisa esperar para o final ser feliz.

 

Sobre o Keith, vale um capítulo. Ele é um brasileiro que nasceu na Inglaterra. O que ele ama de nosso país vai além de sua paixão por Michele, pois ele bem poderia lhe pedir que fixassem residência no luxuoso endereço do casal em Londres, e com certeza ela não se oporia.

Mas ele adora viver aqui. “Job at London, live in Brazil”, me conta ele. E insisto: Trancoso, Rio de Janeiro? “No, Timóteo is very funny”. O que ele mais gosta de fazer? Ir para a Sede Campestre do AEC e encontrar os amigos, seja em casa, seja sendo recebido para um vinho, comidinhas, fogão aceso e conversa fluindo, panelas de delícias abastecendo as energias dos bons papos, horas divertidas.” Não, ele ainda não fala português, mas já contratou professor particular. Ele está quase ‘mineirando”, no melhor sentido.