BOB DYLAN, PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

Articulado, erudito, politizado, Bob Dylan é dono de uma invejável coleção de poemas cantados, ligando-o à tradição milenar da poesia oral. Como disse a Academia Sueca: “Ele pode e deve ser lido.”
A Academia Sueca anunciou na quinta-feira passada (13/10) em Estocolmo, com felicidade audível dos jornalistas presentes, que o prêmio Nobel de Literatura em 2016 vai para o cantor, poeta e escritor americano Bob Dylan.
Cotado para o prêmio desde a década de 1990, o anúncio não é uma grande surpresa, ainda que se trate de um artista conhecido por sua música e, portanto, um azarão diante de nomes como Haruki Murakami, Philip Roth, Adonis e outros eternos candidatos.
Bob Dylan é autor, além de um volume de memórias, de um livro que poderia enquadrá-lo entre os escritores propriamente ditos: a coletânea Tarantula, publicada em 1971.
Poemas em prosa, contos surreais, literatura do absurdo, Tarantula é um livro inclassificável. Críticos veem nele a influência de autores das décadas de 1950 e 1960, especialmente prosadores como Jack Kerouac e poetas como Allen Ginsberg, da Geração Beat.

Aqui, duas das música que Dylan fez e que, com certeza, contribuiu para o prêmio:

Masters of War (Mestres da Guerra), 1963
(Aqui, raiva, angústia, ira. Tudo junto e misturado em plena Guerra Fria, quando os Estados Unidos começavam a intervir no Vietnã e no ano em que o presidente John F. Kennedy foi morto a tiros.”Nunca havia escrito algo assim antes”, contou Dylan em uma entrevista. “Não canto canções para desejar a morte das pessoas, mas não pude evitar isso com esta.”

You that build the big guns / Vocês que fabricam as grandes armas
You that build the death planes / Vocês que fabricam os aviões da morte
You that build all the bombs / Vocês que fabricam todas as bombas
You that hide behind walls / Vocês que se escondem atrás de muros
You that hide behind desks / Vocês que se escondem atrás de mesas
I just want you to know / Só quero que saibam
I can see through your masks / Que posso ver através de suas máscaras

A hard rain’s a-gonna fall (Uma chuva forte irá cair), 1963
(Considerada a “melhor canção de protesto escrita pelo melhor autor de protesto de todos os tempos” pela Rolling Stone, esta música de sete minutos fala de um pai que pergunta a seus filhos o que eles veem, e eles descrevem cenas apocalípticas.”Cada linha é o começo de uma canção por si só”, explicou Dylan na época do lançamento. Mas, ao escrevê-la, ele não achou que teria tempo suficiente para escrever cada uma de suas músicas, e “por isso reuniu todas elas em uma só”.

I saw a newborn baby with wild wolves all around it / Eu vi um recém-nascido rodeado por lobos
I saw a highway of diamonds with nobody on it / Eu vi uma estrada de diamantes com ninguém nela
I saw a black branch with blood that kept drippin’ / Eu vi um galho negro que pingava sangue
I saw a room full of men with their hammers a-bleedin’ / Eu vi uma sala cheia de homens com seus martelos sangrando
I saw a white ladder all covered with water / Eu vi uma escada branca toda coberta por água
I saw ten thousand talkers whose tongues were all broken / Eu vi dez mil oradores cujas línguas estavam todas quebradas
I saw guns and sharp swords in the hands of young children / Eu vi armas e espadas afiadas nas mãos de crianças
And it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard, and it’s a hard / E é forte, é forte, é forte e é forte
It’s a hard rain’s a-gonna fall. / É forte a chuva que irá cair